terça-feira, 16 de junho de 2009

Habitar a cidade. Conhece-la pelos cantos, desde os rodapés. Escalar muros, repor ladrilhos, quebrar espelhos. Promover passeatas mudas de mínimas feras mitológicas, enfileirar formigas falsas. Pendurar céus equiláteros que vigiem a pele deste ser atemporal, ser grande, ser pequena. Criar trajetos dispendiosos, traceja-los, marca-los com tinta até a próxima chuva, segui-los até que todo sentido perca a direção. Amarrar balões aos postes, deixar que voem, permitir que sejam esquecidos, marcar cada um deles com um segredo, uma proposta invisível para cada milênio novo. Adesivar as superfícies com memórias indizíveis, embaralhar paisagens, criar portos frágeis para pequenas naus, propor intimidades improváveis entre um corpo anônimo e uma invisível arquitetura. Habitar as frestas, explicitar-se nas brancuras. Eu não te esperava, mas aqui estou, para transtornar teus muros com minhas contra-máquinas e deixar nas tuas mãos fórmulas que nos una e nos separe, a cada nova soma, a cada inútil solução. Entrar na cidade, permanecer em seus espaços. Entre os muros, entre os carros, entre os corpos, entre os prédios, entrem todos. Habitar, entre a intimidade e a espera, entre o que é meu e o que é seu, entre, pode entrar. Entre uma manhã e uma noite, entre dois instantes que já passaram, entre a voz e o silêncio, entre e demore mais um pouco. Entre e não vá, não tão rápido, não sem olhar uma segunda vez, dar-se o tempo de uma espera, um instante para a pausa e então perceber que entre os cheios resolutos da cidade, entre os corpos tão prontos que passeiam pelas ruas, há o espaço para a dúvida, para as questões emudecidas. Habitar, sem ter certezas, sem precisar ter rumo, comprovante, logradouro. Entre o que é fixo e o que nunca se resolve, entre e fique à vontade, a rua é sua, pode entrar.

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